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Ano 65 - quinta-feira, 19 de novembro de 2009
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Ângela Rocha | angela@gazetadosul.com.br
Dia Mundial da Filosofia
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Em 2002 a Unesco, numa bela manifestação de reconhecimento, instituiu o “Dia Mundial da Filosofia”. Foi decretado, então, que na terceira quinta-feira do mês de novembro, em cada ano, comemorar-se-ia esse dia. Para nós, aqui no Brasil, nesse ano de 2009 o Dia Mundial da Filosofia é lembrado às vésperas do Dia da Consciência Negra. Aí estão, creio, dois grandes temas para se pensar e, sobretudo, agir. Por dever de ofício, reporto-me, nestas linhas, apenas ao Dia Mundial da Filosofia.

A sociedade moderna, salvo alguns redutos muito específicos – as academias – marginalizou a Filosofia e o filosofar. As situações do cotidiano, da vida, os problemas, a educação, a economia, a política... não têm recorrido à Filosofia para seu diagnóstico. O que se percebe, pelo contrário, é uma incessante luta para desqualificá-la. A sociedade pragmática, consumista e tecnocrata criou a escola tecnicista e autoritária que baniu a Filosofia dos currículos, expurgando-a das escolas. A ordem, hoje, é produzir uma massa passiva, homens sem consciência, mão de obra dócil à implantação e solidificação de um modo de produção mais preocupado com o capital do que com o próprio ser humano. Assim, o interesse em promover o gosto pela filosofia é praticamente nulo. Para reverter este quadro é necessário mais do que simplesmente rever os juízos sobre os quais a consciência é postulada, é necessário rever as relações de poder e, mais do que isso, bem preparar os acadêmicos dos cursos universitários. No caso específico da Filosofia, acredito que ela tem uma contribuição significativa neste processo, pois faz-se presente em praticamente todos os cursos de licenciatura das universidades.

Por outro lado, deve-se ter presente que a Filosofia é um conjunto de conhecimentos que tem por função primeira repensar, discutir e analisar a arte, a política, a religião, as ciências... Ela deve compreender no conceito seu tempo e a sociedade em que vive. A filosofia se constitui no movimento que se recusa a aceitar a realidade imediata para transformá-la numa realidade pensada, compreendida no conceito. Contudo, definir a tarefa da Filosofia simplesmente como “pensar o seu tempo” pode induzir ao equívoco de pôr a etiqueta famosa da filosofia sobre qualquer reflexão acerca de objetos e fenômenos da época. Não podemos, como bem alertou o jovem Marx em 1842, transformar a filosofia em “reportagem jornalística”. Mas para que isso não ocorra devemos oferecer as condições para que alunos e professores investiguem de fato, obedecendo o método próprio da Filosofia. E para isso, é mister incentivá-los à pesquisa e ao ensino, conforme suas peculiaridades.

O que importa, entretanto, é que independente do modo de se compreender a Filosofia, a cada instante somos solicitados e desafiados por novos problemas e situações. A Filosofia visa a descobrir, nestes problemas e situações, uma finalidade: a realização humana pessoal e social no tempo. Esta deve ser a busca concreta do filósofo. Ao mesmo tempo, cabe-lhe a tarefa da denúncia dos entraves ideológicos, políticos e culturais que desviam as pessoas do movimento da justiça, da liberdade e da sociabilidade humanas. O modo de fazer Filosofia nunca pode se dar por completo, nunca pode dogmatizar-se, isso porque ele é histórico e deve acompanhar o movimento e a emergência de novas situações culturais e históricas. Esta forma de filosofar não é trabalho para um mestre solitário, mas exige a participação de muitos estudiosos, atentos ao caminhar das ciências e da experiência sociocultural da comunidade. É por isso que a pesquisa e a biblioteca se constituem em um momento privilegiado do filosofar.

Que esse 19 de novembro, Dia Internacional da Filosofia, possa ser entendido além de um dia de júbilo e festas, como um dia em que a humanidade de fato se pergunte sobre o “ser humano” da própria humanidade.



Renato Nunes/Professor, coord. Curso de Filosofia - Unisc
 
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