A venda de crack dentro dos limites do Bairro Bom Jesus, em Santa Cruz do Sul, tem prazo para terminar. O anúncio não partiu de autoridades formais, mas dos próprios responsáveis pela venda da droga, durante uma reunião com moradores. No encontro, indivíduos conhecidos pela comunidade local como vinculados ao tráfico se comprometeram a encerrar o comércio de crack a partir de 10 de dezembro, restringindo-se à venda de maconha e cocaína.
A reunião ocorreu na tarde da última sexta-feira e os detalhes do encontro começaram a chegar à imprensa nesta semana, por meio de telefonemas anônimos. Segundo tais relatos, traficantes teriam demonstrado preocupação diante do desgaste da própria imagem, tendo em vista os problemas causados pelo crack no bairro, como os danos à saúde dos usuários e a incidência de furtos. Pela determinação, o consumo do tóxico em público também se tornaria passível de retaliações.
Um homem que admite realizar a entrega de drogas, localizado pela reportagem via telefone, com auxílio de moradores, revelou que a onda de furtos e roubos decorrente do consumo desta droga também era prejudicial “aos negócios”. “Começaram a surgir muitas denúncias e prisões, por causa do crack”, disse. Outro confirmou que o comércio das “pedras” estaria com os dias contados. “Vou parar de vender. Quem quiser continuar vendendo outra coisa (maconha ou cocaína) pode. Mas, crack, não.”
Procurado para comentar o assunto, o presidente da Associação de Moradores do Bairro Bom Jesus, Clairton Ferreira, o Tim, confirmou ter participado do encontro, realizado junto à sede situada ao lado do campo de futebol. Sem citar nomes, Tim relata que o convite partiu de pessoas supostamente vinculadas ao tráfico. “A associação vinha realizando um trabalho de conscientização sobre os males do crack, junto às escolas. Talvez por isso, fomos convidados a participar”, comenta.
Segundo Tim, o convite circulou pelo bairro e cerca de cem moradores participaram do encontro. Primeiro, mães de dependentes relataram o sofrimento que enfrentam e, depois, o próprio presidente do bairro falou das mazelas causadas pelo entorpecente. “Citamos o quanto o crack vem destruindo famílias. Temos crianças de nove anos usando esta droga, que talvez não cheguem aos 15 anos”, afirmou ontem.
Por fim, os traficantes anunciaram o fim da venda do entorpecente, possivelmente já planejado com antecedência. O prazo até 10 de dezembro teria sido estipulado com base no que ainda existe de crack estocado. O ingresso desta droga para dentro do Bom Jesus já teria sido interrompido.
 |
O BAIRRO
|
 |
Já chamado de Camboim, o Bairro Bom Jesus surgiu a partir de uma vila operária formada por migrantes de outras cidades, que vinham para Santa Cruz em decorrência da expansão industrial, em meados de 1920. Hoje é considerado o bairro mais populoso da cidade, tendo 6 mil eleitores. Conforme pesquisa realizada em 2004 e 2005 pelo Curso de Serviço Social da Unisc, a maioria dos moradores trabalha na safra ou em faxinas.
A Brigada Militar considera o bairro um “ponto delicado”, por servir de base a delinquentes, não só vinculados ao tráfico, mas também a crimes como roubo e furto. No ano passado, tiros contra guarnições levaram a corporação a adotar uma estratégia de policiamento com emprego de um blindado. Além disso, é no bairro que é cumprida a maioria dos mandados de busca obtidos pela Defrec. Sabe-se, no entanto, que o título de local violento desagrada aos moradores, os quais sempre ressaltam o caráter honesto e trabalhador da grande maioria dos habitantes.
|
|