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Ano 65 - sábado e domingo, 18 e 19 de julho de 2009
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Mauro | mauro@gazetadosul.com.br
Liberdade sexual não elimina o ciúme
Fotos: Divulgação/GS
Chico Caldeira/EpNews
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Faz nove anos que ela chocou o mundo com os relatos de sua intensa vida erótica e de sua liberdade sexual no polêmico A Vida Sexual de Catherine M.. Este ano a francesa Catherine Millet, escritora e diretora da revista Art Press, surpreende o leitor ao revelar em novo livro o incontrolável ciúme que sentia por não ser a “única”. Afinal, quem poderia imaginar que uma mulher que defende a liberdade sexual poderia sofrer tão desesperadamente por ser traída?

Em paralelo às aventuras sexuais contadas no livro de 2001, a nova obra de Catherine não tem as descrições precisas de cenas sexuais e as fotos íntimas publicadas em seu primeiro livro – e que provocaram a fúria dos críticos mais conservadores. Na verdade, alguns viram o livro como um marco da liberdade feminina, outros consideraram pornografia.

O fato é que, agradando críticos ou não, A Outra Vida de Catherine M. (Editora Agir) pode vender tanto quanto o primeiro – 2,5 milhões de exemplares em 47 países, 120 mil somente no Brasil. Após sua passagem pela Festa Literária Internacional realizada recentemente em Paraty, no Rio de Janeiro, Catherine esteve na Livraria da Travessa (Shopping Leblon), para falar sobre o novo livro.

GAZETA Entrevista: CATHERINE MILLET - ESCRITORA



Magazine – A senhora voltou a escrever sobre sua vida sexual?

Catherine Millet –
Há oito anos fiz um balanço da vida. Ao refletir sobre sexualidade senti uma defasagem entre a minha experiência e a ideologia da minha geração, que defendia a liberdade sexual como garantia de equilíbrio. Aproveitei bastante dessa liberdade, mas acabei sendo obrigada a reconhecer que ela também não era garantia de felicidade total.



Magazine – Como chegou a essa conclusão?

Catherine –
Se eu tivesse dado essa entrevista há 30 anos, teria colocado a sexualidade em um lugar central na minha vida. Hoje, ela é apenas um motor: é a nossa libido que nos faz agir. Mas outras coisas podem ser tão ou mais importantes que o sexo.



Magazine – Como, por exemplo...

Catherine –
Se você perguntar às pessoas à minha volta, elas dirão que sou alguém que mergulha no trabalho. Além disso, tenho uma vida sentimental e conjugal muito satisfatória.



Magazine – A senhora está casada há 20 anos. É difícil manter um relacionamento duradouro?

Catherine –
Durante os primeiros anos não mudei minhas práticas sexuais. Eu falava sobre as minhas experiências fora do casamento e ele, sobre as dele. Não escondíamos o que fazíamos, só não contávamos detalhes. Sempre existiu certa distância em relação ao que cada um fazia em seu canto, que, aliás, não era o mesmo tipo de experiência. Eu gostava de sexo em grupo e Jacques não, embora ele tivesse suas aventuras, suas amigas. Mas é um erro pensar que um casal pode dizer tudo, como aquela ideologia a que me referi deixava a entender. Não é verdade.



Magazine – Neste livro a senhora conta que sentiu ciúme. É um paradoxo...

Catherine –
Liberdade sexual não elimina o ciúme. É uma contradição que a natureza humana não conseguirá jamais resolver. Nunca cheguei ao ponto de proibir meu marido de coisas que eu me autorizava a fazer. Mas isso não me impedia de sentir ciúme. Sempre fomos discretos em relação à vida sexual que tínhamos fora do casamento. Pouco a pouco fui me desligando dessa sexualidade dispersa e percebi que era ótimo estar com meu marido. Mas acredito que nossa relação resistiu ao tempo porque tínhamos essa liberdade sexual.



Magazine – Qual foi a reação de seu marido e de seus ex-amantes com o lançamento do livro?

Catherine –
Com exceção de Jacques, meu marido, os nomes de meus amantes foram trocados. Eu preveni aqueles com quem mantenho contato até hoje que iria escrever o livro. As reações foram positivas. Jacques sempre me encorajou porque acreditava que era importante colocar no papel tudo o que vivi.



Magazine – A senhora oferece uma forma de sexualidade um pouco fora do comum...

Catherine –
Um grande número de pessoas da minha geração fez sexo grupal ou experimentou casamento aberto. Muitas dessas experiências dos anos 60, 70 e mesmo dos 80 foram um pouco esquecidas. Não se falava mais disso por razões sociais e por causa da Aids. Meu livro fez com que as pessoas reencontrassem o clima daquela época e se lembrassem de suas experiências.



Magazine – E como é passar a noite com 30 homens? Os leitores não tiveram a sensação de que a senhora gosta de ser usada?

Catherine –
Vivi situações em que meu corpo havia sido bastante solicitado, mas mesmo cansada eu tive prazer. Nunca pratiquei sadomasoquismo, mas podemos encontrar prazer na sensação de um corpo esgotado. Não acho que uma mulher de joelhos fazendo felação em um homem em pé seja algo humilhante. Não vejo a coisa pelo lado simbólico. É o meu corpo, não a minha mente que está de joelhos diante de um homem.



Magazine – A senhora teve um amante brasileiro. Como foi a experiência?

Catherine –
O que me chamou a atenção no Brasil é como as mulheres mostram o bumbum na praia. Na França, não usamos a parte de cima do biquíni, mas não se mostra o bumbum. Para mim, a bunda é uma zona erógena extremamente importante. Gostaria de poder mostrar meu corpo da mesma forma que as brasileiras.
 
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