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Já falei outras vezes que gosto de sentar para ouvir meu pai. Ele não cansa de repetir tudo, com novos detalhes, trazidos por uma memória que às vezes funciona em conta-gotas. Tenho também o mesmo gosto em escutar outros contemporâneos dele, cada um com sua história própria, enriquecida por uma vida longa e cheia de percalços. São vidas que dão livros, e que livros! Vidas que surgiram e se forjaram na dureza, muitas vezes a pé, sem conforto, sem televisão e celular, sem computador, sem nenhuma parafernália eletrônica. Eles mostram que o impossível também é possível, contanto que pelo menos se tente.
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Semana passada, sentei com um amigo desses, que tem nome de escritor. Do alto dos seus 93 anos, Paul Christian Pflug goza de uma lucidez espantosa. Ocupa-se principalmente com leituras e palavras cruzadas. Palavras cruzadas? – perguntará alguém. Isso mesmo, e eu respeito muito quem faz palavras cruzadas, elas deixam o raciocínio em dia. As leituras são os jornais daqui, na nossa língua pátria, agora reformada por esse acordo que nos atropelou. A revista Time vem no original inglês. Livros e leituras variadas são feitas em alemão, a língua da raiz. Não seria de admirar se lesse também em espanhol, pois passou alguns anos plantando trigo na fronteira uruguaia. Tudo ensinado pela vida e acumulado como patrimônio cultural próprio.
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Entre um chá e um café, foram duas horas e meia de conversa. Começou pela história de seu pai, Paul Hermann, que veio de Hamburgo para o Brasil em 1904, aos 25 anos. Só falava alemão e não se entendia com ninguém. Desceu do Rio para Blumenau, e ali quiseram que perseguisse uns índios botocudos que tinham raptado três crianças. Aquilo era muito louco, caiu fora e voltou para a Alemanha. Depois, em 1908, veio para Rio Grande a serviço da firma Bromberg, que exportava para o Brasil. Casou com uma teuto-brasileira e teve filhos. Em décadas de trabalho, chegou a ser gerente do Instituto Riograndense de Carnes. Demitido em 1942, quando o Brasil entrou na guerra, foi acusado de espionagem, junto com uma dúzia de compatriotas. Ficou dois meses preso e oprimido na casa de correção de Porto Alegre, de onde saiu arrasado.
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Ele nem simpatizava com o regime alemão, mas não adiantaria alegar isso. O crime dele era mais simples: falar alemão, com a agravante de ter nascido lá. Isso costumava acontecer também com os brasileiros de língua alemã. Aqui em Santa Cruz, há histórias até bem piores. As vítimas do Estado Novo, mesmo presas sem motivo, tinham por hábito respeitar governos. Os percalços faziam parte das dificuldades da vida, que cada um tinha que enfrentar do seu jeito. Ninguém proporia indenizações por isso, como aconteceu depois com aqueles que se beneficiaram do regime militar, contra o qual pegaram em armas e que por isso os prendeu. Hoje, estão no governo ou são amigos do rei, e se refestelam com polpudas indenizações.
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Em Rio Grande, o jovem Paul Christian foi colega e amigo de um rapaz cujo pai tinha uma venda no subúrbio. Chamava-se Golberi do Couto e Silva, aquele mesmo que depois seria general e eminência parda do regime militar. Nos papos do Clube Germânia nasceram idéias como a da fundação da Varig, nos anos 20. Mais tarde, com Golberi e um engenheiro da Ipiranga, pela primeira vez ele ouviu falar em energia atômica. Dez anos depois, as bombas já explodiam no Japão, sobre Hiroshima e Nagasaki. Outra vez, conseguiu vaga numa excursão de hidroavião até Pelotas, mas sua mãe cortou o barato. Terminados os estudos, foi à luta como representante comercial e conheceu Santa Cruz do Sul, onde Cupido flechou o seu coração. A moça se chamava Clarice e era filha de Fritz Rech, dono de um bazar bem no Centro da cidade. Conheceu-a no Clube União, durante um baile de São João. Ela era linda, rainha e madrinha de clubes e entidades. Casaram em 1944, mas ainda rodaram pelo Estado até 1960, quando deitaram raízes definitivas em Santa Cruz.
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Aqui ele comprou um posto de gasolina e acabou representante da Ipiranga, servindo de alavanca para que a empresa assumisse a conclusão do cine-hotel antes da Fenaf, em 1966. E aí está o Charrua Hotel até hoje. Por indicação de um amigo, foi nomeado representante do Funrural para aposentar agricultores. Quando fechou as primeiras mil aposentadorias, havia municípios que ainda não tinham nenhuma. Desconfiaram que ele estivesse aposentando indevidamente, aí mandaram um fiscal, que nada constatou. Santa Cruz do Sul era o segundo município gaúcho em número de propriedades rurais. Um dia, a um agricultor que perguntava o preço do atendimento, ele respondeu que não custava nada, e ouviu o cidadão dizer, em alemão: “Mas isso nunca me aconteceu na vida!” Outro colono conseguiu aposentar-se três meses antes de morrer. Depois, os familiares vieram agradecer, dizendo que ele morreu feliz, pois realizara o sonho da aposentadoria.
* Jornalista
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